Uma manhã inesquecível!

Era uma tarde preguiçosa, deitado no sofá, mantinha o olhar fixo nas gotas de chuva que tilintavam na janela e formavam desenhos únicos, sempre diferentes. Lá fora, o vento frio, a chuva e a névoa emprestavam ao dia a sensação de vazio e de solidão.

Colocou-se em pé, dirigiu-se até a lareira, aqueceu as mãos, ajeitou os cabelos, apanhou uma xícara de chá bem quente e entregou o pensamento aos devaneios, voou através do tempo, afinal, não fora sempre só!

Estava uma manhã linda!
Chovera muito durante a noite, mas agora o sol brilhava, as árvores e as flores pareciam salpicadas de diamantes, os pássaros nos saudavam com seus cantos harmoniosos!
Já se ouvia vozes na sala, muito barulho mesmo, risos e saudações.
Era bem cedo, mas a beleza natural convidava.

Com calma vestiu-se para a missa, gostava da missa de Natal, o ambiente cheirava a flores e os sorrisos eram de festas.
Desceu as escadas, sendo imediatamente cumprimentado por todos. Passando pelo jardim viu que a casa estava cheia, parentes e amigos vinham compartilhar a festa.
O sol já estava alto quando ganhou a rua, o vento leve trazia o perfume das flores e a paisagem estava colorida de esperança, caminhava a passos lentos, absorvendo o frescor da manhã e a sensibilidade da vida…
Muito tempo se passou desde aquela manhã de Natal, clara e feliz, mas na lembrança ficaram imagens, sentimentos e emoções, fazendo relembrar o significado de participar e amar… Afinal, não fora sempre só!

Temos então… RETALHOS…

Vivemos e não podemos negar, sentimos e não podemos apagar… mas podemos dar novo significado e nova direção, encontrar o  caminho certo, em busca da alegria e da felicidade, em busca da gratidão e viver intensamente!

TEMOS ENTÃO… RETALHOS… 

Ao remexer na caixa, escondida no fundo do baú, descobrimos que temos guardado tantos retalhos quantas lembranças… 

Lembranças de tempos que não voltam mais, tempos que talvez tenham sido vividos com intensidade, talvez bem vividos, ou ainda, tão mal vividos, que talvez não valesse a pena relembrá-los…  Quem sabe?
Não faz diferença, quando sabemos que simplesmente vivemos, sentimos, choramos, rimos, abraçamos, beijamos, adormecemos e despertamos sempre na certeza de que a vida vale a pena!

Ao abrir a caixa que surpresa, tantas cores, tamanhos  e formas…
Uma caixa de retalhos é como a “caixa de pandora”, depois de aberta não há como fechá-la novamente.
As lembranças vão fluindo numa corrente de alegrias e tristezas.
São pequenas partes de um grande todo, são pequeninas pedrinhas de uma grande rocha, assim como grãos de areia que uma dia pertenceram a praia imensa…
Muita filosofia? Talvez…
Mas uma coisa não podemos negar, nossa vida é repleta de cores, formas e tamanhos, ou não?!

Certo dia acordamos, levantamos e nos olhamos no espelho. O que foi que aconteceu?
Não nos reconhecemos, ficamos a procurar aquela criatura que estávamos acostumados a ver todas as manhãs nesse mesmo espelho e que agora nos parece totalmente desconhecida.
Talvez tenha chegado a hora de procurar o caminho certo… trilhar a estrada de reencontro com a alegria, o sorriso, os abraços fraternos e ternos, as conquistas e realizações que se perderam na caixa de retalhos, por sorte ela ainda está lá, esquecida no fundo do baú!