Afinal tinha que valer a pena!

Quando o coração sangra e as lágrimas secam.
 Após adequar estas novas situações a nossa rotina, ao nosso dia a dia, enfrentei novo desafio:  me adaptar e adequar a vida de estudante universitária aos 36 anos de idade e com família formada, após 15 anos afastada do ambiente estudantil.

Esse retalho foi difícil de encontrar…

Como já havia cursado faculdade anos atrás, meu currículo não foi, digamos, normal. Cursaria as matérias de maneira a cumprir carga horária e fechar o quadro, isso quer dizer, iniciei o meu curso, meu retorno a faculdade, numa classe de 8º. Semestre. Isso mesmo! Último ano do curso de formação em psicologia, foi barra!!! Grupos formado há muito, assuntos em total andamento e eu chegando… “pasmando”, “uma carta fora daquele baralho”, um “estranho naquele ninho”.

O segundo dia de aula foi numa classe de 1º. Semestre, a matéria era “língua portuguesa”, todos calouros,  jovens afoitos e barulhentos, recém chegados.  Aquele ambiente me parecia festivo demais,  afinal, o que eu estava fazendo ali, naquela aula, vivendo aquele momento de pânico e desespero?!

Bem, é isso aí… Opostos a me atrair… um dia no último semestre, outro dia no primeiro… imaginem como ficou a minha cabecinha: um caos.

Nos outros dias da semana, encaixei outras matérias, mas sempre nesse esquema, últimos ou primeiros estágios dessa formação acadêmica.

Por que tudo isso?  Explico: já trazia no meu histórico escolar matérias cursadas na outra faculdade que foram aceitas na atual, para outras foi necessário complementar a carga horária e finalmente, algumas  não faziam parte do currículo anterior e precisavam ser cumpridas.

Alguns meses depois tive muuuuuita vontade de desistir, largar tudo, voltar a minha vidinha de esposa, mãe e dona de casa, mas não dava mais tempo, era preciso continuar. Não dava para desistir agora, tinha que ir em frente! Eu precisava enfrentar com dignidade e coragem.
Muito havia sido alterado para que eu pudesse viver aquilo!
O coração sangrava, mas as lágrimas estavam secas…

Assim foi o meu retorno a faculdade de psicologia. Assim foi por 3 anos, inteirinhos!
Afinal tinha que valer a pena!

Mais um retalho foi encontrado na caixa “mágica”!

Recontar uma história apresenta a característica diferenciada de estar distante das emoções do momento vivido, ou seja, agora falando sobre tudo isso, não estou na posição de protagonista e sim de narrador.
Isso me ajudou a perceber o quanto somos capazes de crescer e amadurecer nas ocasiões em que somos convidados a testemunhar força, coragem e fé.

Mais um retalho foi encontrado na caixa “mágica”!

Para retornar a faculdade e, posteriormente, me estabelecer profissionalmente, tive que modificar a nossa rotina, da casa, do marido e dos filhos, mudança de horários, mudança de colégio e tantas outras que agora não me recordo, só sei que foram importantes para todos nós.
Viver novas experiências e emoções, por vezes, custa caro. Você já viveu isso?  Pois é!
Então…  a “cada bônus, seu ônus”…
Ainda dói quando me lembro: a carinha das crianças na escola nova, a inquietação da minha filha com os amigos novos, tão diferentes dos outros. A escola, agora, era pública, oposta a particular da qual havia deixado a apenas… nenhum dia… terminou um dia no “céu” e iniciou o outro no “inferno”.
Não foi fácil, mas repetia incansavelmente, pra mim mesma,  que valeria a pena.
Hoje, recontando isso para vocês, sei que valeu sim, mas não posso afirmar o quanto.
Sacrificar a vidinha deles para que tivesse uma profissão foi criticado por todos, sem exceção.
Mas me mantive firme e determinada nessa escolha.
Ter um emprego depois de tantos anos me encantava e foi ponto forte para a minha recuperação de uma depressão infindável, afinal meus filhos não precisavam mais de “mãe” em período integral.
E foi assim que a minha saga começou.

O sangue imigrante que corre em nossas veias nos fez retomar!

Sou descendente de imigrantes italianos, homens e mulheres que deixaram sua terra natal, partiram para uma aventura de esperança e fé, acreditando em dias melhores e conquistas verdadeiras.
Apesar de pouquíssima bagagem, traziam no coração  saudades e  expectativas, encontraram vida difícil e sacrificada, mas em momento algum desacreditaram.

Cantando canções que falavam de alegria e amor, dançavam nos quintais de terra batida, muitas vezes com fome e frio, mas sempre unidos em grupos de familiares e amigos, distraiam os corações apertados de tristeza através dos sorrisos abertos, gestos fartos e fala fácil, assim venceram lentamente os primeiras e estafantes períodos de adaptação,  nova terra, cultura e idioma, muitas decepções e dificuldades.

As mulheres em breve se tornaram fortes pilastras das novas famílias que se formavam, muitos filhos e agregados para administrar enquanto os homens enfrentavam o forte calor e a aridez daquela terra desconhecida.
Eles no campo, na roça, na lida, na lavoura…
Elas no fogão de lenha, no desconforto da tábua de lavar roupa e demais atividades que lhes tomavam todo o dia…
É dessa “árvore” que descendo…
Forte, firme, determinada, alegre, segura, saudosa, sensível, especialmente amorosa e acolhedora.
Como desistir, como entregar, como desanimar, como sair sem tentar até as últimas conseqüências?
NÃO! Definitivamente ainda não era hora de se entregar. Decidimos continuar. Seguir…
Afinal o sangue italiano, imigrante, quente, fervilhava e circulava em meu ser me lembrando que sou bisneta, neta, filha e amiga de um povo determinado e trabalhador, guerreiro e amoroso,
Decidimos seguir e retomamos o que nos pertencia por direito e começamos tudo novamente!
O sangue imigrante nos fez retomar!

Quando você percebe que a raposa não roubou as uvas…

Essa nossa visão otimista e prospera de encarar a vida e as dificuldades, em várias ocasiões nos sustentou no degrau mais alto, mas na maioria delas nos fez ingênuos e crédulos demais no caráter humano, especialmente o caráter (ou a falta dele!) do comerciante experiente, astuto e um tanto aproveitador, que por acaso era nosso concorrente mais direto.
Bacana né?! Como podemos sair dessa? Sei lá! Nunca havíamos pensado nisso…

Quando você percebe que a raposa não roubou as uvas…

 Poderíamos culpar o governo, o sistema, o fornecedor, sei lá… tantos culpados… livrando nossa cara e nossa falta de esperteza em situação tão  complicada.
Mas, percebíamos a cada dia, que se quiséssemos ir adiante, seria preciso mudar drasticamente nossa forma de pensar e acima de tudo, nossa forma de agir.
Tentamos váaarias vezes, mas qual nada, nossa reação se mostrava insuficiente.
A situação ficava difícil…
Me fez recordar de uma fábula de La Fontaine que meu pai nos contava:

A raposa e as uvas.

“Morta de fome, uma raposa foi até um vinhedo sabendo que  encontraria  muitas uvas.
A safra tinha sido excelente.
Ao ver a parreira carregada de cachos enormes, a raposa lambeu os beiços. Só que sua alegria durou pouco, por mais que tentasse, não conseguia alcançar as uvas.
Por fim, cansada de tantos esforços inúteis, resolveu ir embora, dizendo:
- Por mim, quem quiser essas uvas pode levar. Estão verdes, estão azedas, não me servem. Se alguém me desse essas uvas eu não comeria”.

 

Moral da história:

  • Aqueles que são incapazes de atingir uma meta tendem a depreciá-la, para diminuir o peso de seu insucesso.
  • É fácil desprezar aquilo que não se pode alcançar.

Naquela situação, naquele momento, nós nos sentíamos a própria raposa…
Não conseguimos colher as uvas… Mais fácil seria dizer que elas estavam verdes…

Nem tudo são flores no comércio de perfumes!

Produto bom, ponto de venda escolhido com profissionalismo e pesquisa, instalações perfeitas para o momento, qualidade de atendimento e mão de obra sintonizada com o objetivo da loja.
Vender e vender, sempre mais, muito fácil! Todos diziam a mesma coisa, o sistema atual proporciona faturamento e prosperidade.

NEM TUDO SÃO FLORES NO COMÉRCIO DE PERFUMES!
Estávamos tão bem instalados e apoiados pelo nosso fornecedor que pouco a pouco fui também modificando a minha maneira de trabalhar, procurando adequar as minhas palestras ao sistema de treinamento de vendas e atendimento ao cliente, ou seja, eu também deixava a minha área de atuação – clínica – e adentrava ao difícil e complexo ramo do comércio.
Assim sendo, descobri que o “comerciante” nasce feito, não adianta, se você não tem no sangue o “bichinho” do “negociar” e “vender”, terá dificuldades grandiosas para sobreviver.
Parece fácil, basta estar atrás do balcão sorridente e bem vestido, conhecer o produto, esperar o cliente, atende-lo bem e pronto, tudo certo! Venda feita e dinheiro em caixa… Errado!
As vezes a coisa não funciona assim, essa combinação de variáveis não acontece e o dia é um prefeito fracasso e decepção, mas como somos otimistas, sabemos que amanhã será bem melhor!
Assim foi por inúmeras tardes, manhãs e até noites.
No inicio coisa nova sempre chama atenção, mas passado algum tempo, entrando tudo na rotina diária, foi ficando mais distante o objetivo de ganhar espaço em mercado tão acirrado e competitivo.
O agradável aroma de flores, concentrado em pequenos frascos de perfumes, lentamente foi ficando “ardido”, deixando um rastro de dúvidas e abrindo um enorme buraco na nossa conta bancária.
Claro que surgiram mãos amigas e fomos com elas nos sustentando como podíamos.
Muitas vezes na nossa caminhada, nos deparamos com pessoas certas e permanentes, que nos amparam, nos incentivam e nos fazem especial em suas vidas.
Encontrei pessoas assim em várias situações, ainda bem!
Criaturas irmanadas na certeza de que iríamos ao sucesso, afinal o que poderia dar errado?!

Recontando a minha história!

Quem não passa tempos procurando o caminho, especialmente o caminho certo?
Pois é, comigo não foi diferente.
Venho buscando respostas há muito tempo.
Por vezes acreditamos que encontramos, mas, sem perceber a coisa foi embora e sem saber estamos numa trilha que não nos levará a lugar algum.

É chegada a hora de procurar o caminho certo…
Trilhar a estrada de reencontro com a alegria, o sorriso, os abraços, as conquistas e realizações que se perderam na caixa de retalhos, por sorte elas ainda estão lá, esquecidas no fundo do baú!
A partir de agora iniciamos uma viagem…

RECONTANDO A MINHA HISTÓRIA!

Era um ano próspero.
Estávamos em 1996.
Acabara de me formar em psicologia e estava cheia de planos e expectativas para desenvolver uma carreira não só de sucesso, mas também de gratificação pessoal.
No auge dos meus 40 anos de idade, sabia bem o que queria, não era uma jovenzinha sonhadora, mas uma mulher amadurecida que almejava auxiliar no desenvolvimento pessoal de muitas pessoas.
Tive muita sorte com a profissão, enquanto alguns colegas lutavam para se estabelecer e formar clientela, eu possuía local e uma agenda profissional considerável.
Assim que possível, iniciei minha jornada. Tudo fluía bem!
Fortalecia-me como profissional e me realizava como pessoa. O rendimento financeiro não era suficiente para muitas coisas, mas não precisava dele para a minha sobrevivência e da minha família, o que conseguia reaplicava nas instalações do consultório e no equipamento para as minhas palestras, meu objetivo mais querido, formar grupos qualificando pessoas para uma vida melhor.
Tudo ia muito bem até que em certo momento, meu marido recebeu uma proposta para mudança, não só de emprego, mas também de atividade profissional. Deixava a multinacional e adentrava ao ramo comercial. Não tinha como dar errado, tudo indicava para o sucesso certo!
Mas, sabe aquela história do caminho certo? Então…
Acreditamos que tínhamos encontrado, mas sem perceber a coisa foi embora e sem saber estávamos numa trilha que não nos levou ao lugar esperado.