CORAGEM E SUPERAÇÃO!

Esse retalho foi importante na minha vida pessoal e profissional…

 Assisti uma palestra sobre “A importância dos valores morais na sociedade”,  tema pomposo  mas a abordagem foi simples e objetiva, nos fez refletir sobre a “coragem e a superação”.
A palestrante foi ótima, divertida e o tempo passou sem que percebêssemos.

Ao retornar, abri minha caixa e localizei um retalho interessante que estava bem no fundinho…

O ano devia ser 2000 ou 2001, não recordo com precisão.
Era uma época financeiramente difícil  para nossa família.
Recebi um convite para integrar uma equipe de prestadores de serviço na prefeitura da cidade onde residia.
No início me assustei com tantas regras, relatórios, formulários e uma burocracia um tanto hipócrita, mas isso não vem ao caso.
Como não estava em condições de rejeitar a oferta, “meti as caras e fui!”

Tenham a certeza, foi a melhor escolha e o melhor momento de toda a minha carreira.
Aprendi bastante, me tornei uma pessoa e uma profissional bem melhor!
Era um público impossível de descrever com palavras, somente com o coração!
Carências múltiplas, não dá nem para listar.
Quando o trabalho começou, fui alocada em uma sala com 20 jovens alunos, na faixa dos seus 18 anos, atrasados no currículo escolar, sendo que o objetivo do projeto era dar o mínimo de condição para que pudessem participar de um processo seletivo de empresas parceiras, renomadas multinacionais.
A parte que nos coube foi o “desenvolvimento pessoal”, ou seja,  normas de conduta para uma apresentação razoável diante do selecionador.

No primeiro dia, me chamou a atenção, um jovem alto, esguio, que compareceu “envolto” em uma roupa de moleton, um capuz enorme cobria a sua cabeça sempre baixa, não permitindo que víssemos seu rosto. Assim ficou durante todo o tempo da aula, não importando o quanto insistíamos para que ele participasse das atividades, todas visando a integração do grupo.
Seu nome era João*,  na hora da chamada ele respondia  balançando lentamente a cabeça abaixada e só! Isso foi até o quarto encontro, eram dez no total, com duração de quatro horas cada um.
O melhor vem agora…

 Na manhã do quinto dia, o Joao* apareceu sem o famoso capuz, vestido num jeans limpíssimo  com a camiseta do uniforme.  Barba feita, um sorriso tímido e um par de olhos azuis lindíssimos!
Foi uma surpresa maravilhosa!
Todos o abraçaram e tomaram a iniciativa de incluí-lo nas tarefas.
Lentamente, durante os outros encontros,  o nosso João* se mostrou uma  “pessoinha”  inesquecível,  foi tomando coragem e superando seus temores.
No dia reservado para  os alunos falarem sobre suas vidas,  João* realmente se superou, abriu seu coração e deixou sair o seu melhor…
Contou-nos com detalhes a sua história pessoal, como vocês já devem prever, justificou a sua atitude encolhida de desconfiança e rejeição!
Nos dois dias finais, o João* era outro garoto, cantou, participou dos jogos, das atividades em grupo e individual.
O que mais me marcou nessa vivência foi a capacidade que temos de transformar através do acolhimento e do afeto!
João* estava seco, desconfiava de todos que dele se aproximava temendo receber o pior, quando sentiu seu coração  irrigar de amor, afeto e inclusão, seu rosto se iluminou e seus olhinhos brilharam…
No último dia, com os olhos lacrimejando e o coração batendo forte, recebi  um abraço tão afetuoso e quente  que sou capaz de recordar…
“- Professora, a Sra.  é a pessoa mais especial que já passou pela minha vida, obrigado… Nunca vou me esquecer da Sra.   e do que aprendi aqui!”
Nos abraçamos e choramos juntos…
Eu não me esqueci de você João*, o menino  que chegou amedrontado e triste,   inseguro e distante e saiu sorridente, acreditando em si mesmo!                           

Nunca mais encontrei o João*,  mas não importa, o que ficou na minha caixa de retalhos é a  certeza da força do acolhimento e do afeto, capaz de fazer emergir a coragem e a superação, transformando “meninos cabisbaixos e tristes  em homens altivos, sorridentes e seguros de si mesmo”!

Mais uma vez…  valeu a pena!