Um pequeno retalho: a “pobre-menina-chata”!

Antagonizando com o dia de ontem tão claro, brilhante e quente, a natureza apresenta hoje uma chuvinha fina que escorre pela janela, a tarde está fria, a praia vazia e triste com ondas escuras e revoltas.

Dia apropriado para mais uma reflexão.

 

Tantos acontecimentos para relembrar…

Em contato com as minhas lembranças, decidi abrir, mais uma vez, a minha “caixa de retalhos”, esquecida dentro do velho baú.

Lembrei-me de uma vez quando viajava a trabalho e conheci uma garota muito especial, na verdade a nossa história se tornou especial!

Trabalhávamos juntas em um projeto social e dividíamos a mesma sala, isso é importante relatar pois foi aí que tudo começou.
Todas as vezes que nos reuníamos para discutir o tema da próxima aula, lá vinha a tal “menina chata” com mais uma história que, cá pra nós, não tinha nada ver com aquilo que deveríamos conversar.
Esse comportamento irritava as outras participantes do grupo, a partir daí o ambiente ficava desagradável com inúmeras discussões.
Esse fato se repetiu por várias semanas, não me recordo quanto, mas sei que foi o suficiente para se criar uma antipatia tão grande que dificultava bastante o andamento do trabalho, a nossa equipe sempre ficava atrás em todas as metas, recebendo punições constantes.

Certa tarde fria e chuvosa, daquelas que parece tudo desarrumar na vida da gente, não consegui sair para almoçar, resolvi pedir um lanche e comer por ali mesmo, minutos depois a nossa colega se sentou ao meu lado e começou a contar uma de suas histórias, se referia a uma viagem que havia feito para a Disney e…tralalá… tralalá…
E assim foi em muitos detalhes.
Já me preparava para ficar irritada quando decidi que naquela tarde tiraria tudo a limpo, afinal quem ela pensava que era para  “ficar se mostrando” desse jeito!

A chuva lá fora afastava as pessoas, na sala somente as duas…
De repente resolvi lhe fazer uma pergunta, nem me lembro por que, mas recordo muito bem da resposta.
Lhe perguntei sobre a família, e qual não foi a minha surpresa ao saber que a nossa amiguinha era órfão de pais há muitos anos, desde criança, que havia perdido sua avozinha há pouco tempo e além disso, não tinha mais ninguém no mundo, não tinha notícias de parentes vivos.
Completou dizendo que morava sozinha e que estava longe de sua cidade, sem amigos e que se sentia bastante triste ao chegar em casa e não encontrar quem a esperasse e assim foi que, ficamos nesse papo por um longo tempo.
Quando me dei conta, estávamos compartilhando nossas histórias e em muitas delas ríamos como “velhas amigas” ou “as mais novas amigas de infância”!

Desde aquele nosso encontro, naquela sala vazia de reuniões, tendo como companhia aquela chuvinha que escorria pelas janelas enormes, tendo como pano de fundo o frio característico das tardes de inverno, a minha percepção sobre a “pobre garota-chata” foi mudando, mudando, mudando…
Nem preciso dizer que nos tornamos amigas de verdade, né?!

Afinal, com quem nossa “menina-chata” dividiria suas experiências e vivências, senão com aqueles que estavam ao seu lado, procurava a nossa amizade como numa súplica e nós ali, juízes implacáveis de um orgulho monstruoso, a condenávamos como algozes sem piedade!

Depois de vários outros encontros e dividindo nossas vidas, compartilhando conquistas, a vida nos separou.
Nosso contrato de trabalho terminou, voltamos para nossas cidades, para nossas casas, eu para minha família e ela, bem… ela, demorou um tempo, mas também formou a sua!
Casou-se, teve um casal de filhos e… não sei.
Novamente a vida nos separou e perdemos contato.
Mas tenho certeza que ela está bem, feliz e realizada, contando para os seus todas aquelas histórias “maravilhosas” que um dia tanto nos irritou!

A vida é mesmo mágica!

Antagonizando o dia, lembrei-me do antagonismo de uma verdadeira história de “amizade e amor”, num dia a “tal menina-chata”, no outro a “tal menina-amada”!

 

 

Ah! Essa nossa “caixa de retalhos”, quantas lembranças de dias chuvosos, tardes frias e tristes que se transformaram em pequenos retalhos de afeto e muito amor!

Este pequeno retalho é para você minha querida amiguinha, aonde quer que esteja, saiba que sempre será uma lembrança especial!

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