Um dia alguém me disse que queria ser feliz…

Entre as muitas andanças que fiz por essas estradas da vida, uma delas me fez acreditar que podemos encontrar a felicidade em lugares incomuns.

Estava prestando serviço em um dos inúmeros projetos sociais da cidade onde morava, viajava algumas horas para chegar ao local de trabalho.
Faltava todo o tipo de material, desde giz até papel e cola.
Deveríamos preparar aqueles jovens para exercerem atividades numa panificadora.
O local não inspirava “sucesso” e o grupo muito menos!
Eram adolescentes enviados pela “fundação casa”, para uma tentativa de readaptação social através do profissional, um projeto-piloto.

Sabíamos que seria trabalho árduo para retorno incerto, mas era o meu trabalho…
Fazer o que?!
Não vou citar os detalhes pois não nos interessa nesse papo.

Fazia parte do grupo uma garota de nome *Elisabete, cabelos longos e louros, olhos azuis e um sorriso largo.
Ela era bem humorada mas gostava de desafiar a minha autoridade.
Elisabete sempre chegava cedo, vinha com a primeira turma da tarde.
Ficávamos conversando até que o restante dos participantes chegasse.
Certo dia comentei que gostava da cor dos seus olhos e perguntei
“se vinham do pai ou da mãe”…
Pela primeira vez *Elisabete não sorriu, costumava ironizar tudo, mas desta vez seus olhos marejaram e percebi que tocava em algo sério.
Depois de algum tempo em silêncio, ela me olhou e disse que não sabia, pois desconhecia a natureza e o paradeiro de seus pais, nascera no abrigo e por lá havia ficado até fugir com 10 anos de idade, vivera na rua com todo o tipo de gente, experimentara muitas drogas e para sobreviver havia se prostituído aos 12…
Ficou um sentimento estranho no ar…

 

 

 

A partir dessa conversa, *Elisabete se tornou uma menina quieta e bem mais participativa, notei que prestava atenção no que eu dizia e trazia as tarefas de “casa” prontas.

 

Questionei a sua mudança e ela me respondeu que “nunca ninguém havia falado dos seus olhos daquele jeito e que eu tinha me preocupado com ela de uma maneira diferente, que ela não sabia explicar.”
Fiquei sem reação, só consegui abraçar aquela criança com jeito de “gente grande” e lhe disse baixinho: “Não importa o que passamos ou fomos, sempre podemos dar um final feliz pra nossa história.”
Sei lá, foi a única coisa que me veio a mente.
Choramos juntas e nos despedimos por aquele dia.

Interessante é que havia algo especial que nos unia.
Aquela garota bonita, porém tão mal tratada pela vida, seja no físico, na aparência, seja nos relacionamentos ou no psicológico, parece que escondia outra pessoa atrás daqueles olhos azuis imensos e intensos.

No dia seguinte, *Elisabete veio perfumada, com os cabelos penteados e presos num rabo de cavalo, sua roupa estava limpa e seus olhos brilhando como duas pedrinhas azuis.
Me abraçou e me beijou, não era habitual essa maneira de me saudar!
E me disse: “Professora, essa noite eu não consegui dormir pensando naquilo que a senhora me disse e resolvi que posso ser feliz, tenho só 16 anos e tenho muitos sonhos. Botei meu nome na lista pra começar a trabalhar.”

Foram mais algumas semanas de trabalho e *Elisabete se tornou a minha melhor aluna. A sua dedicação foi recompensada com a aceitação de seu nome para integrar a equipe que participaria deste “projeto-piloto”.

Na nossa despedida ela me entregou um bilhetinho com um pacotinho embrulhado em papel de presente e me disse: “Professora, eu te amo! Eu quero ser feliz. Muito obrigado!”

Era uma estatueta pequenina: um menino sentadinho numa pedra com a mão na testa, pensativo, no pé uma frase: “estou pensando em você”.
E no bilhete estava escrito: “É de pobre mas comprei com o dinheiro que economizei do trabalho que fiz, é dinheiro honesto. Nunca se esqueça de mim. Eu te amo muito. Queria que a senhora fosse minha mãe.  Um beijo”

*Elisabete consegui o seu trabalho, deixou a “fundação” sob custódia de um mentor do projeto, foi adotada por uma família provisória e voltou a estudar.

Seguiu seu caminho e foi feliz!

Muito tempo se passou desde aquele encontro, mas trago comigo o seu sorriso, a sua alegria e a sua determinação em SER FELIZ!

Não sei de sua vida atual, pois perdemos contato, mas tenho na minha cabeceira aquela estatueta: estou pensando em você.
Me motivando a buscar alegria e superação sempre!
Porque alguém um dia me disse que queria ser feliz… e conseguiu!

 

Esse “retalhinho” é em sua homenagem *Elisabete!

 

  • (Elisabete é um nome fictício)

3 ideias sobre “Um dia alguém me disse que queria ser feliz…

    • Oi Rosy, desculpe a demora, mas fico feliz que tenha lhe emocionado… essas lembranças são “emoções” que nos fazem “recontar” nossa história… Abraço!

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