Bailarina e Sonhadora!

Hoje vou falar de uma pequena garota que conheci há algum tempo…

Seu nome é Gabriela*, bailarina e sonhadora!

Nossos caminhos se cruzaram após ela realizar uma viagem a Europa para fazer um estágio em uma das mais renomadas companhias de balé do mundo.

Havia retornado de um longo período fora do país e embora tivesse pouca idade, sua experiência já podia ser comparada a uma profissional mais velha, com vivência de palco e técnica elaborada.

 

O motivo pelo qual nos conhecemos era sua dificuldade em se readaptar as regras familiares que regiam a casa paterna.

Para que possamos entender melhor esta história é preciso voltarmos um pouco no tempo…

 

Gabriela* se dedicava ao balé desde muito pequena, sua rotina, bem como sua vida era a dança, ia para o colégio a tarde, por isso todas as manhãs eram para as aulas e ensaios. Não tinha tempo para as brincadeiras naturais de sua idade, seus pais, muito rígidos, não permitiam festinhas, passeios ou amizades fora do ambiente da dança.

 

 

 

Sempre participava de festivais e concursos, e quando essas datas se aproximavam sua dedicação era redobrada.

Assim foi por um bom tempo, até que, ao participar de um famoso festival de balé, seu esforço foi reconhecido e sua oportunidade chegou!

Gabriela* ganhou uma bolsa de estudo fora do Brasil e lá se foi ela para uma aventura que mudaria para sempre sua história de vida.

Acostumada ao aconchego da família e aos mimos do lar, especialmente da mãe, a primeira coisa que Gabriela* teve que aprender foi se “virar” sozinha.

Nunca havia deixado a casa dos pais, quanto mais cruzar o oceano e viajar para além mar completamente só.

Enfrentou todo tipo de dificuldades, desde as mais básicas como idioma, alimentação, hospedagem, autocuidado, e tantas outras relacionadas à sua carreira, como por exemplo, maus tratos dos professores e castigos físicos quando não atingia a expectativa de seus mentores que sempre exigiam perfeição.

Enquanto Gabriela* relatava sua história de dificuldades e falta de respeito (pelo menos ao ver de nossa cultura e educação), controlava as lágrimas que teimavam em aflorar em meus olhos.

Imaginava aquela pequena criança, franzina, branquinha, esguia, a repetir incansavelmente movimentos e mais movimentos até o corpo não suportar mais, bolhas e calos nos pequenos pés que mal cabiam numa sapatilha surrada, num ambiente hostil e com a responsabilidade de não decepcionar aos pais, aos professores e a si mesma.  Me questionei se não seria uma carga pesada demais para tão pequenina criatura…
Enquanto meus pensamentos se faziam presentes, Gabriela* me olhou nos olhos, e disse: – Não estou aqui para que tenha pena de mim… Quero voltar a conviver em harmonia com meus pais e minha família!
Confesso que fiquei sem graça, ela tinha razão: – Tudo bem! Vamos lá!

Continuamos nossa conversa e ao término de nosso encontro percebi que tivera diante de mim não mais uma pequena garota, mas uma mulher forte, segura e corajosa, cujo objetivo era fazer com que seus pais a percebessem assim.

Depois de tantas vivências, sua vida nunca mais seria a mesma, retornara uma mulher e profissional experiente, não mais aquela garotinha mimada que deixara a casa dos pais algum tempo atrás. A dificuldade estava em convencer sua mãe, seu pai e irmão disso! Para eles o tempo não havia passado, aguardavam Gabriela* retornar como se ela tivesse ido ali do lado…

Tivemos outros encontros, várias conversas, reflexões e antes de encerrarmos nosso trabalho, Gabriela* concluiu que estava preparada para iniciar uma nova etapa em sua vida.

Apesar de ter realizado seu grande sonho, atingido seu objetivo e suas expectativas, a conclusão era muito decepcionante para continuar.

A realidade passava longe do glamour e da beleza dos palcos, sonhado e imaginado por tanto tempo, o trabalho era árduo e pouco reconhecido, tanto esforço em nada compensava, a exigência era além da sua capacidade de realizar, concluiu que era o momento de parar, dedicar-se a si mesma, retomar sua vida “humana” o mais rápido possível, fazer tudo o que tinha vontade sem se preocupar se atrapalharia seu dia ou sua noite. Dormir tarde, acordar tarde, sair com amigos, ir ao cinema, namorar e voltar a estudar, como qualquer outra garota da sua idade.

Lembro que quando comunicou sua escolha aos seus pais, estes ficaram olhando sem saber o que fazer, se chorar ou se sorrir, se abraçar ou “bronquear”…

Após algum tempo de conversa perceberam que aceitar era inevitável, afinal Gabriela* não tinha intenção de mudar sua decisão!

Para encurtar esse papo, posso dizer que a garotinha que saiu do Brasil retornou mulher feita, decidida e amadurecida.

Seus pais levaram um tempo para se acostumar com a nova Gabriela*, cheia de si e determinada, mas como todos os pais, percebendo que “sua garotinha” estava feliz, se renderam e tudo ficou bem!

Gabriela* se formou em música e dança, abriu sua própria escola e trabalhou com crianças, ajudou muitas delas a realizar seu sonho: ser uma bailarina!

Como costumo dizer, o tempo passou e nunca mais encontrei Gabriela*.
Soube por amigos que se casou, teve filhos e continuou a se dedicar a arte de dançar, mas agora sem sonhar, com os pés no chão a dançar pelos “palcos da vida”!

Não mais bailarina e sonhadora, mas uma mulher experiente e profissional realizada!

Mais um “retalhinho” foi encontrado na minha “caixa de retalhos”!

Amo a vida…

Amo minha “caixa mágica”!

(* Gabriela é um nome fictício)

4 ideias sobre “Bailarina e Sonhadora!

  1. Olá Elisete… Boa noite!
    Adorei a sua bailarina voadora…uma perfeita guerreira,forte e determinada.

    Até me senti como ela,ASSIM como você!

    Beijosss

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