O menino que queria voar…

Certa vez encontrei pelo caminho um garoto que queria voar…

 

Iniciava minha caminhada profissional, minha sala era pequenina e ficava num prédio antigo no centro da cidade, no segundo andar, sem elevador, dois lances de escada precisavam ser vencidos todos os dias!

 

Numa tarde quente de primavera, recebi uma visita interessante, mãe e filho adentraram a pequena sala se sentaram a minha frente e logo após a apresentação descobri que seria um grande desafio profissional para quem estava apenas começando.

Decidi trilhar este novo caminho e descobrir o que encontraria no final!

Não foi fácil, era complicado entende-lo e seguir sua forma de raciocínio era uma verdadeira viagem ao interior de um complexo cognitivo do qual eu nada entendia.

Segui minha intuição e fui adiante.

Depois de alguns encontros iniciamos uma conversação, não sei explicar, mas passamos a nos entender, era uma conversa truncada, com muitas formas imaginárias e sem conteúdos lógicos.
Sem ofender… “uma loucura”.
Mas, ou entrava na “loucura” do meu garoto, ou nada aconteceria.

Respirava fundo e me lançava cada vez mais nessa viagem.

Em determinado momento, ele me olhou profundamente, se levantou, chegou muito perto das janelas, eram duas, bem amplas, e disse:
“Meu sonho é voar…”


Sei que não é lá muito ético, mas desejei que não fosse naquele momento a primeira tentativa!
Afinal estávamos no segundo andar!

 

 

Tirando o “perigo” da frase, aproveitei para aprofundar aquele desejo, não posso responder qual a fórmula mágica utilizada para conversarmos, mas lembro que fiz algumas perguntas e ele respondeu com tanta clareza que foi surpreendente!
Percebi que aquele garoto tinha um desejo contido de liberdade…
Devido as suas limitações cognitivas, conseqüentemente físicas, seus pais lhe cobriam de mimos e cuidados não permitindo que sua vida fosse mais livre.
Onde quer que fosse alguém o acompanhava.
Me pareceu naquele momento que a frase “meu sonho é voar” estava diretamente ligada ao desejo de conseguir se libertar de tantos cuidados.
Decidi investigar melhor e conversar com seus pais.
Nem preciso dizer que foi uma conversa difícil, pois não tinham a menor intenção de me ouvir quanto mais de mudar a situação.

Concluindo:

Confesso que ficava tensa toda vez que ele se aproximava das janelas e olhava fixamente para fora mirando o céu e depois o chão e repetia este comportamento dizendo: “quero voar”  ou  “vou voar”…

O tempo foi passando, ele foi se acalmando, se tornou um garoto risonho e vagarosamente foi se soltando, como uma pequena criança, aprendendo dia a dia, vencendo um desafio a cada etapa, lentamente foi aprendendo a “voar”!

Lembro que um dia ele apareceu sozinho, lhe perguntei sobre sua mãe e ele displicentemente respondeu: “ficou em casa…”
Sinalizando que estava bem a vontade naquela nova situação, sorri e dei inicio ao nosso encontro.

Quando terminou, levantou-se, se despediu e com segurança me disse:
“Não venho mais…”


Fiquei olhando aquele garoto magrinho e sorridente se retirar, pela ampla janela eu o vi partir para não mais retornar.

Nunca mais voltou…

 

 

 

Ele não necessitava mais dos meus préstimos.
Eu sabia por quê…
Ele “aprendera a voar”!

Assim aconteceu…
Não mais encontrei aquele garoto tão interessante e que me ensinou tanto!
Fizemos um vínculo produtivo.
Profissionalmente amadureci imensamente…
Aprendi muito sobre o “ser” humano!

Ficou a lição: todos nós podemos “voar”, basta escolher como será esse “voo”!

 

Mais um “retalhinho” foi encontrado na minha “caixa”…

Amo a vida…

Amo minha “caixa mágica!”

 

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