Muito se tem falado em diferenças, inclusão, coragem, superação, conquistas e vitórias, não é mesmo?!

Pois bem, tudo isso me fez lembrar um tempo em que, por força do trabalho, conheci inúmeras pessoas excluídas de todas as formas de convívio social e descobri que elas são capazes de desenvolver uma fórmula de sobrevivência para não sucumbir.

Abro agora minha caixa e apresento um retalho interessante que estava bem guardado, lá no fundinho.

Esse retalho foi muito importante na minha vida pessoal e profissional…

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Era um público impossível de descrever com palavras, somente com o coração!

Carências múltiplas que não dá nem para listar.

 

Mas tenham a certeza que foi um dos melhores momentos da minha carreira.

Aprendi bastante, me tornei uma pessoa e uma profissional bem melhor!

20 alunos, na faixa dos seus 18 anos, atrasados no currículo escolar e com inúmeras dificuldades sociais.

O objetivo do projeto era dar o mínimo de condição para que pudessem voltar a conviver em sociedade.

 

No início fiquei bastante assustada, porém não estava em condições de rejeitar a oferta, “meti as caras e fui!”

No primeiro dia, me chamou a atenção, um jovem alto, esguio, envolto num capuz enorme que cobria a sua cabeça sempre baixa, não permitindo que víssemos seu rosto, nunca!

Assim ficou durante todo o tempo das aulas, não importando o quanto insistíamos para que ele participasse das atividades.

Seu nome era João*,  na hora da chamada ele respondia  balançando lentamente a cabeça e só!

O tempo foi passando e o grupo se entrosando, é incrível como o ser humano é capaz de se adaptar e se adequar as situações que se lhe apresentam.

Estava maravilhada com o desenvolvimento daquelas criaturinhas tão sofridas e esquecidas de si mesmas!

Mas… O melhor vem agora…

Certa manhã o Joao* apareceu sem o famoso capuz, vestido num jeans limpíssimo  com a camiseta do uniforme.  Barba feita, um sorriso tímido e um par de olhos azuis lindíssimos!

Foi uma surpresa maravilhosa!

Todos o abraçaram e tomaram a iniciativa de incluí-lo nas tarefas.

Lentamente o nosso João* foi tomando coragem e se mostrando uma  “pessoinha”  inesquecível!

No dia reservado para  os alunos falarem sobre suas vidas,  João* realmente se superou, abriu seu coração e deixou sair o seu melhor.

Contou-nos com detalhes a sua história pessoal, como vocês já devem prever, de violência e rejeição!

Sua vida na rua, o convívio com a bandidagem, o uso de drogas para afastar o medo e a fome, experiências incrivelmente dolorosas e profundamente marcantes…

Explicando sua atitude encolhida de desconfiança e medo!

 

Todos o abraçaram e o acolheram de modo incrível, afinal todos ali  tinham sua história de abandono, preconceito, exclusão e muitas, muitas carências…

Nos dias finais, o João* era outro garoto!

 

 

No último dia, com os olhos lacrimejando e o coração batendo forte, recebi  um abraço tão forte,  afetuoso e quente  que sou capaz de senti-lo até hoje…

“- Professora, a Sra.  é a pessoa mais especial que já passou pela minha vida, obrigado. Nunca vou me esquecer da Sra. e do que aprendi aqui!”

Nos abraçamos e choramos juntos…

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Estamos acostumados a acreditar que somente atos grandiosos são capazes de modificar ou de aproximar, que somente com muito dinheiro, tempo, cultura ou preparo é possível  devolver dignidade a alguém, digo-lhes que isso é fantasia ou comodismo, pois pequenos gestos de amor e um bocadinho de dedicação e afeto “movem montanhas” e o resultado benéfico é tão gratificante que não pode ser descrito em palavras, é o tipo de coisa que apenas o coração é capaz de compreender , não precisamos “ter”, basta “ser”!

O que mais me marcou nessa vivência foi a capacidade que temos de transformar através do acolhimento e do afeto!

João* estava seco, desconfiava de todos que dele se aproximava temendo receber o pior, quando sentiu seu coração irrigar de amor, afeto e inclusão, seu rosto se iluminou e seus olhos azuis brilharam!

Nunca mais encontrei o João*,  mas não importa, o que ficou na minha caixa de retalhos é a  certeza da força do acolhimento e do afeto, capaz de fazer emergir a coragem e a superação, transformando “um menino cabisbaixo e triste numa pessoa  alegre e sorridente!

 

Eu não me esqueci de você João*, o menino  que chegou amedrontado e triste, inseguro e distante e saiu um jovem rapaz sorridente, acreditando em si mesmo!

 

Mais uma vez… O AMOR valeu a pena!

(*Nome fictício)

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